Sleaford Mods em transe
Cobertura Rádio AntenaZero
Num sábado cinza de finados em São Paulo, o Sleaford Mods provou que basta um notebook, um microfone e dois caras com uma presença de palco estranhamente hipnotizante pra fazer um show surpreendente.
O duo britânico de pós-punk com influências de rap e música eletrônica fez sua única apresentação no Brasil graças à aposta da Maraty, produtora que tem bancado atrações fora do óbvio desde o ano passado. Também foi um acerto a escolha do Black Pantera pra abertura, aquecendo o Carioca Club com a energia alinhada pro que viria a seguir.
Aclamado por artistas de peso como Iggy Pop pelo som inclassificável e revigorante, o Sleaford Mods bota o dedo nas feridas do Reino Unido com suas letras cortantes sobre o cotidiano da classe trabalhadora, mas sem jamais se levar muito a sério, e é esse misto de agressividade e deboche que torna tudo tão singular.
Ao vivo, sem todo o aparato de uma banda tradicional, podia se imaginar uma energia mais contida de ambos os lados, mas rola o contrário. Há algo de perigosamente inflamável na combinação do vocalista Jason Williamson cuspindo centenas de palavras por minuto num carregado sotaque do interior da Inglaterra, enquanto o produtor Andrew Fearn controla as bases e dança à vontade pelo palco.
Suas batidas criam uma espécie de transe que contamina quem assiste, e em certos momentos a plateia inteira vira uma enorme roda punk ritmada. Esse público tão pilhado que o duo nem imaginava encontrar por aqui sustenta a intensidade do começo ao fim, com picos de euforia em faixas como UK GRIM, Mork n Mindy e Tweet Tweet Tweet, com seu beat entoado como hino ao final do show. Não à toa Andrew se mostrou impressionado e disse que São Paulo foi "um sonho".
Uma noite imprevisível que terminou comprovando como a música tem espaço infinito pra fundir gêneros, subverter expectativas, se reinventar sempre, e como o Brasil também está sintonizado nisso e merece seguir na rota do que há de diferente rolando no mundo hoje.



